terapia
16 Junho, 2007
era um tipo calado. assim o viam outras pessoas, menos caladas que ele. os amigos não se queixavam da sua propensão para discursar. respondiam à pergunta falo demais? com uma simpática variação. falas muito, isso não quer dizer que seja demais. outros, amigos ainda e mais íntimos, tinham aprendido a calá-lo, muito rapidamente, com um olhar, um gesto ou uma palavra, quando queriam falar ou ouvir. a isto chamava ele de intimidade. gostava do à-vontade rude e meigo que a proximidade permitia. havia um terapeuta que o chamava de amigo. a isto chamava ele de benigno e saudável optimismo. ele escrevia, usando assim grande parte do tempo em que estava calado e sem ninguém para ouvir. uma vez escreveu que dizer de alguém que ele é calado é uma utilização estranha do adjectivo. pode estar-se calado. pode até estar-se habitualmente ou tendencialmente calado. mas não se é calado. seria o mesmo que dizer de alguém que ele é sentado. pode estar-se sentado, mas não se é sentado. como não se é boquiaberto ou sorridente. o seu amigo optimista falou-lhe de como a escrita, com determinadas premissas, pode ser terapêutica. não foi surpreendente a associação da escrita à terapia. o que foi surpreendente, primeiro, foi a eficácia da terapia. e, de seguida, o despontar de uma preguiça muito subtil em relação a isso das premissas. premissas não é palavra que ele use, habitualmente. já preguiça é uma palavra que ele conhece e que usa, sem qualquer preguiça. por exemplo para dizer, olha lá, preguiça, mas quem és tu para vir com o teu beicinho pensando que me seduzes fazendo birra?