confinado
18 Junho, 2007
estou num espaço fechado. tento saltar, chegar à janela. olho melhor, não há nada, paredes de cimento. muda o ambiente. tenho noção que estou deitado. agarram-me as mãos. penso que me estão a agarrar os pés, também. e uma quinta mão tapa-me a boca. fico assim algum tempo, a sentir a pressão que me fazem, o corpo está imobilizado. decido então apertar a mão direita. consigo perceber melhor a mão que me aperta, reagindo. a pressão é imensa e eu acordo. junto à mão direita ouço um som, alto. um resfolegar, como de uma máquina a soltar vapor ou um cavalo a respirar ruidosamente. o corpo continua imóvel. ao fechar os olhos, volto a sentir novamente a pressão das cinco mãos. abro os olhos, tranquilamente. depois de breves instantes volto a dormir.
pessoa
17 Junho, 2007
tinha esse hábito antigo de falar de um outro, na terceira pessoa, e que era e ele próprio. um dia começou uma narrativa dessa forma. e viveu a narrativa que escrevia. sentava-se nos espaços entre as dúvidas e as expectativas e punha nas palavras a falta de fôlego que lhe sobrava. bebia. café ou água. e serenidade que lhe escorria do peito, como um suor potável destilado laboriosamente. e pousava a caneta para que o vazio em frente se enchesse com o seu olhar. tomou decisões. e comprimidos. deve ter pressentido que um dia mostraria o resultado desses momentos de volta dos parágrafos. agrafou ao presente os pensamentos que a grafia fixava. e que um dia publicou, que é o mesmo que dizer: tornou público.
terapia
16 Junho, 2007
era um tipo calado. assim o viam outras pessoas, menos caladas que ele. os amigos não se queixavam da sua propensão para discursar. respondiam à pergunta falo demais? com uma simpática variação. falas muito, isso não quer dizer que seja demais. outros, amigos ainda e mais íntimos, tinham aprendido a calá-lo, muito rapidamente, com um olhar, um gesto ou uma palavra, quando queriam falar ou ouvir. a isto chamava ele de intimidade. gostava do à-vontade rude e meigo que a proximidade permitia. havia um terapeuta que o chamava de amigo. a isto chamava ele de benigno e saudável optimismo. ele escrevia, usando assim grande parte do tempo em que estava calado e sem ninguém para ouvir. uma vez escreveu que dizer de alguém que ele é calado é uma utilização estranha do adjectivo. pode estar-se calado. pode até estar-se habitualmente ou tendencialmente calado. mas não se é calado. seria o mesmo que dizer de alguém que ele é sentado. pode estar-se sentado, mas não se é sentado. como não se é boquiaberto ou sorridente. o seu amigo optimista falou-lhe de como a escrita, com determinadas premissas, pode ser terapêutica. não foi surpreendente a associação da escrita à terapia. o que foi surpreendente, primeiro, foi a eficácia da terapia. e, de seguida, o despontar de uma preguiça muito subtil em relação a isso das premissas. premissas não é palavra que ele use, habitualmente. já preguiça é uma palavra que ele conhece e que usa, sem qualquer preguiça. por exemplo para dizer, olha lá, preguiça, mas quem és tu para vir com o teu beicinho pensando que me seduzes fazendo birra?