a fala
22 Novembro, 2007
passava por longos períodos sem falar. no seu entendimento, as pessoas à sua volta esqueciam-se mesmo que ele era muito falador. como a massa do hábito se sujeita ao rolo do tempo, todos se habituavam, primeiro. de seguida, assimilavam. e depois esqueciam. era como se ele nunca tivesse falado. quando lhe passava a sombra e o cinzento, era como uma barragem que se rompesse. e, diluviano e solarengo, desatava. como criança a descobrir os prazeres de um doce que se tornará a guloseima favorita, logo a seguir à descoberta.
confinado
18 Junho, 2007
estou num espaço fechado. tento saltar, chegar à janela. olho melhor, não há nada, paredes de cimento. muda o ambiente. tenho noção que estou deitado. agarram-me as mãos. penso que me estão a agarrar os pés, também. e uma quinta mão tapa-me a boca. fico assim algum tempo, a sentir a pressão que me fazem, o corpo está imobilizado. decido então apertar a mão direita. consigo perceber melhor a mão que me aperta, reagindo. a pressão é imensa e eu acordo. junto à mão direita ouço um som, alto. um resfolegar, como de uma máquina a soltar vapor ou um cavalo a respirar ruidosamente. o corpo continua imóvel. ao fechar os olhos, volto a sentir novamente a pressão das cinco mãos. abro os olhos, tranquilamente. depois de breves instantes volto a dormir.
pessoa
17 Junho, 2007
tinha esse hábito antigo de falar de um outro, na terceira pessoa, e que era e ele próprio. um dia começou uma narrativa dessa forma. e viveu a narrativa que escrevia. sentava-se nos espaços entre as dúvidas e as expectativas e punha nas palavras a falta de fôlego que lhe sobrava. bebia. café ou água. e serenidade que lhe escorria do peito, como um suor potável destilado laboriosamente. e pousava a caneta para que o vazio em frente se enchesse com o seu olhar. tomou decisões. e comprimidos. deve ter pressentido que um dia mostraria o resultado desses momentos de volta dos parágrafos. agrafou ao presente os pensamentos que a grafia fixava. e que um dia publicou, que é o mesmo que dizer: tornou público.
terapia
16 Junho, 2007
era um tipo calado. assim o viam outras pessoas, menos caladas que ele. os amigos não se queixavam da sua propensão para discursar. respondiam à pergunta falo demais? com uma simpática variação. falas muito, isso não quer dizer que seja demais. outros, amigos ainda e mais íntimos, tinham aprendido a calá-lo, muito rapidamente, com um olhar, um gesto ou uma palavra, quando queriam falar ou ouvir. a isto chamava ele de intimidade. gostava do à-vontade rude e meigo que a proximidade permitia. havia um terapeuta que o chamava de amigo. a isto chamava ele de benigno e saudável optimismo. ele escrevia, usando assim grande parte do tempo em que estava calado e sem ninguém para ouvir. uma vez escreveu que dizer de alguém que ele é calado é uma utilização estranha do adjectivo. pode estar-se calado. pode até estar-se habitualmente ou tendencialmente calado. mas não se é calado. seria o mesmo que dizer de alguém que ele é sentado. pode estar-se sentado, mas não se é sentado. como não se é boquiaberto ou sorridente. o seu amigo optimista falou-lhe de como a escrita, com determinadas premissas, pode ser terapêutica. não foi surpreendente a associação da escrita à terapia. o que foi surpreendente, primeiro, foi a eficácia da terapia. e, de seguida, o despontar de uma preguiça muito subtil em relação a isso das premissas. premissas não é palavra que ele use, habitualmente. já preguiça é uma palavra que ele conhece e que usa, sem qualquer preguiça. por exemplo para dizer, olha lá, preguiça, mas quem és tu para vir com o teu beicinho pensando que me seduzes fazendo birra?
persona
1 Junho, 2000
he had this old habit of speaking about another self, in the third person, and this other self was still himself. one day he started a narrative in that way. and he lived the narrative he was writing. he sat in the spaces betwen the doubts and the expectations and made the words carry the shortness of breath that he had to spare. he drank. coffe or watter. and drank the serenity that dripped from his chest, like a potable swet, carefully crafted. and he droped the pen so that the emptiness in front of him would fil up with his looking forward. he made decisions. and took pills. he must have sensed that some day he would show the results of those moments around the paragraghs. he stapled to the present the toughts that the hand writting established. and that he one day did publish, wich goes as saying, that he onde day made public.
confined
1 Janeiro, 2000
I’m in a confined space. I try to jump, to reach for the window. I look again, there is nothing, concrete walls. I can perceive I’m laying down. my hands are being held. I think my feet are also being held down. and a fifth hand covers my mouth. I stay like this for a while. then I decide to aply pressure with my right hand. I can feel more clearly the hand that presses back. the pressure is heavy and I wake up. by the rigth hand I hear a sound, loud. an exhaling gasp, as if from a machine releasing vapor or a horse breathing noisily. the body stays still. closing my eyes brings back the pressure form all five hands. I open my eyes, with tranquility. after some brief moments I fall back into sleep.